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Primeira travesti doutora no Brasil é um dos destaques do 2º dia do evento

ENCONTRO NACIONAL DO PROGRAMA MULHERES MIL

Professora Luma Nogueira de Andrade falou sobre sua trajetória de vida e fez uma avaliação das políticas públicas direcionadas às minorias
publicado: 29/07/2025 17h51, última modificação: 29/07/2025 17h51

Primeira travesti a conquistar o título de doutora no país, Luma Nogueira de Andrade conversou, nesta terça-feira (29), com o público presente no Encontro Nacional do Programa Mulheres Mil, evento inédito promovido pelo Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), em parceria com os Institutos Federais Sul de Minas (IFSULDEMINAS) e do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE).

Em sua palestra, a professora e atual diretora do Instituto de Humanidades da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), localizada no município cearense de Redenção, contou parte de sua sofrida trajetória de vida e avaliou criteriosamente as atuais políticas públicas voltadas às minorias.

Natural de Morada Nova, no Ceará, Luma é filha de um casal de agricultores analfabetos e aprendeu, desde criança, a conviver com a dor da exclusão. Foi através da educação que encontrou força para enfrentar o preconceito diário e lutar pelos seus ideais.

“Para não apanhar, não ser violentada na escola, eu não saía para o intervalo, nem para brincar com as meninas e nem para desfrutar da merenda e ir ao banheiro. Ficava na sala de aula, reclusa, para poder me manter naquele espaço. Eu não sabia o que estava fazendo naquela época, mas já era uma forma de resistência”.

Para Luma, essas eram suas “estratégias de sobrevivência” para um meio hostil, num período de ditadura militar em que a escola era um dos locais mais excludentes e de não aceitação às diferenças. Escolheu lutar com as armas que tinha porque enxergava que somente por meio da educação é que poderia transformar a sua própria vida.

Após inúmeras batalhas e dissabores, ela, enfim, chegou lá. Em 1999, conclui sua graduação em licenciatura plena em Ciências Biológicas, na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e, numa trajetória ascendente, obstinada, tornou-se a primeira travesti doutora do Brasil. Aliás, sua tese de doutorado, defendida em 2012, na Universidade Federal do Ceará (UFC), deu origem ao livro “Travestis na Escola: Assujeitamento e Resistência à Ordem Normativa”, que traz uma pesquisa bem robusta sobre o assujeitamento e a resistência das jovens travestis na escola, bem como a incapacidade e impotência das instituições de ensino em trabalhar com as diferenças.

“Vivenciei ser travesti, desde o final do ensino fundamental, e principalmente num período em que nós não tínhamos nenhuma conquista em termos de dispositivos legais. Eu tive que abrir essas portas, fazer o meu caminho para fazer o que eu queria. Quando eu cheguei no doutorado, que saiu a manchete na Folha de S.Paulo, que eu era primeira travesti doutora do Brasil, aí eu percebi que eu era a única que tinha chegado a esse lugar, e que era muito importante as pessoas travestis conhecerem essa minha conquista, para que elas pudessem perceber que era possível e, a partir disso, se empoderarem também”, destacou,

Políticas públicas

Em sua palestra no Encontro Nacional do Programa Mulheres Mil, ministrada nesta terça-feira (29), no auditório Enilda Feistauer, do IFSul/câmpus Pelotas, Luma afirmou que as políticas públicas para mulheres cisgênero, transgênero e travestis ainda precisam avançar muito. Para ela, é necessário que haja uma revisão da Lei de Cotas (nº15.142/2025), que apesar de garantir reserva de 30% das vagas a pessoas pretas e pardas, indígenas e quilombolas, em concurso públicos e processos seletivos para contratação de pessoal, é totalmente excludente em relação às questões de gênero.

“Com a revogação da primeira Lei de Cotas, a 12.990/2014, sancionou-se a 15.142/2025, que avançou ao contemplar indígenas e quilombolas, mas não se pensou na equiparação de gênero”, criticou.

Luma apontou que, além da inclusão de mulheres cisgênero, transgênero e travestis, é necessário, também, a implementação de bolsas para garantir a permanência, políticas de acesso ao mercado de trabalho (concurso, seleção e formação) e de apoio à saúde e assistência psicológica, além da ocupação de espaços de gestão e representação social na política, na escola, nas universidades e no próprio Ministério da Educação.

“Pensar em democracia é pensar a inclusão das minorias. Por isso, quem faz gestão tem um papel fundamental para o processo de inclusão e reparação histórica”, finalizou.

O Encontro Nacional do Programa Mulheres Mil segue até quarta-feira (30), nas dependências do IFSul/câmpus Pelotas. Para conferir a programação completa, clique aqui!